Eu nem sei mais a quantidade de vezes que já me fizeram esta pergunta. Por isso resolvi contar aqui para vocês um pouquinho da minha trajetória e o porquê eu, hoje, faço cerâmica.

Onde tudo começou…

Eu venho de uma família de fazedores. Sempre tivemos uma oficina no fundo do quintal, ou um quartinho, um cantinho das “tralhas” quando moramos em apartamento. Tinha ferramentas de marcenaria, elétrica e mecânica em geral.

Em casa também sempre teve máquina de costura, tecidos, tintas e papéis. Tesouras e acabamentos sem fim, de glitter a ilhós, de stencil a silkscreen. Spray, pincel… Sempre! Dá para imaginar que eu tive uma infância feliz, cheia de lápis de cor e revistas recortadas.

Logo que eu nasci, minha mãe dava aulas de artesanato (caixinhas decoradas) e pintura em porcelana na mesa da varanda de casa. E assim foi. Eu dividia meu tempo entre aventuras no quintal, desenhos infinitos no verso dos maços de relatórios da Bosh e as aulas de ballet.

Ah o Ballet! Dançar está nas minhas veias desde o baby class, com 2 anos de idade… Esse amor acompanhou as aulas de artes no colégio, onde pintei meu primeiro quadro. Depois continuou presente quando fiz meu primeiro curso de decoração de interiores no SENAC. A dança só começou a ir embora quando entrei na faculdade de Design.

Foi na faculdade que eu me apaixonei por fotografia. Não por tirar fotos, mas pelas fotos em si. Me apaixonei também pela oficina de marcenaria, pelo desenho de produtos, pelos projetos em CAD (3D)….

Quando tudo desandou…

Foi ali, no meio da faculdade, que eu percebi que alguma coisa estava errada. Eu tinha parado de dançar para poder me dedicar aos estudos, mas na verdade, antes do design eu queria mesmo é ter feito faculdade de dança. Tive uma paralisia facial, disseram que foi por estresse. Eu tinha 19 anos. Depois de 6 meses de fisioterapia e corticoide eu melhorei. Voltei a dançar.

Aproveitei e também larguei a faculdade. Fui viajar. Fui para a Europa. Conheci o Louvre. Conheci tantos museus que perdi a conta! Me apaixonei novamente pela fotografia. Pelos quadros, pelas esculturas, pela arquitetura, pelas culturas… Me apaixonei pela história da humanidade!

Foi aí a primeira reviravolta da minha vida. Voltei diferente. Voltei outra pessoa. Mas voltei… E voltando, voltaram junto as responsabilidades. Eu precisava estudar e trabalhar. Precisava fazer alguma coisa da minha vida. Com o conhecimento de design acabei indo parar num departamento de marketing, depois em outro… Terminei a faculdade dois anos depois, pois o trabalho me exigia conhecimentos diferentes e eu queria fazer uma pós… em Gestão de Projetos…

Eu, a menina que desenhava no verso dos relatórios, estava agora indo em direção aos projetos dos quais os tais relatórios tratavam… E isso começou a me consumir, e eu comecei a definhar. Literalmente.

Quando a realidade me deu um chacoalhão…

Um belo dia acordei gripada. Eu nunca fico gripada. A gripe durou uma semana. Melhorou e depois voltou. Melhorou. Voltou de novo. E assim se passou quase um ano. Eu tive enxaqueca. Eu que nunca tinha tido nenhuma dor de cabeça. Tive cólicas também. Nessa época eu não dançava mais. Nem desenhava. Nem tirava fotos.

Um belo dia acordei e minha bochecha estava amortecida. Fui no médico com medo de a tal paralisia estar voltando. Fiz uma tomografia e pá! Alguma coisa não estava bem. Para ser sincera eu já sabia a algum tempo que alguma coisa estava muito errada, eu sempre fui sensível para perceber meu corpo, eu só estava ignorando o quanto minha vida, meus “objetivos” estavam me machucando.

Larguei a pós. Depois o emprego. Fazia quase um ano que eu tinha ido morar com o Carlos e eu não tinha tido tempo de curtir minha casa. Cozinhar. Eu amo cozinhar! Descobri isso quando saí da casa dos meus pais… Me senti uma droga, com raiva e com vergonha. Onde já se viu largar o emprego assim, em época de crise! O emprego que tinha futuro. O emprego em que o chefe e os colegas me elogiavam… para ser…  que? Dona de casa? Com 25 anos? É… foi difícil. Mas o mais difícil veio depois.

O recomeço…

Me vi em casa, sozinha com meus gatos. Por sinal, larguei o emprego na hora certa para acompanhar a cirurgia de um deles. Parei. Pude sentar no sofá e ler um livro de romance. Saí com a minha mãe para passear. Trouxe minha sobrinha aqui e fizemos torta de limão. Tiramos fotos da torta!

Nessa época eu já tinha me reapaixonado pela fotografia, de comida dessa vez. Food Photography. Comecei a seguir alguns blogs gringos. Testar receitas, fotografar os pratos… Mas minhas fotos eram péssimas. Comecei a pensar sobre a composição da cena, e descobri o Styling. Vi que elementos diferenciados faziam as fotos especiais e comecei a ir atrás desses elementos, os props.

Esbarrei nas peças utilitárias. Eu nunca tinha visto utilitários como aqueles para vender por aqui. Cerâmica artesanal… Fazedora de berço que sou, resolvi fazer. Na mesma semana vi um cartaz com um rosto conhecido de anos, o Prof. Sawada, divulgando aulas de cerâmica. Me inscrevi e, pouco tempo depois, já estava contaminada.

Desde meu primeiro pinch pot, ele, Prof. Sawada e a Elisa Maruyama, parceira dele no ateliê, me elogiaram. Disseram que eu tinha jeito pra coisa. No segundo potinho, um com tampa, com encaixe assimétrico, também em pinch, mais elogios. Quando fiz minha primeira chaleira então! Foi quando vieram as aulas de torno que a coisa ficou séria. A Patrícia, e sua sabedoria milenar acumulada num corpinho jovem, me ensinou coisas que todo dia, no meu trabalho, eu repito para mim mesma e para meus alunos.

O laço…

Junto com o torno veio também a minha carteirinha do plano de saúde novo. Depois que pedi as contas do emprego, fiquei sem plano e parei com os exames. Com a carteirinha nova, vieram os exames… E com os exames veio o diagnóstico. Esclerose Múltipla. Eu chorei. Muito. Nem sei quantas vezes eu solucei enquanto lavava a louça, pensando no dia em que não conseguiria mais poder fazer nem isso…

Depois estudei mais sobre a doença em si, ao mesmo tempo em que me matriculei para fazer aulas de cerâmica no Museu Alfredo Andersen. Descobri que tinha tratamento, mesmo não tendo cura. Aprendi a esmaltar minhas primeiras peças e em seguida fui convidada para participar da minha primeira feira. Descobri que os remédios eram extremamente agressivos, injeções doloridas, de 3 a 4 vezes por semana. Efeito colateral seria sintomas de gripe por 24h. Dor de cabeça, dores no corpo, calafrios e em alguns casos febre… Eu não me sentia doente, ia tomar um remédio que me faria sentir mal? Resolvi não tomar os remédios.

Comecei a entender sobre queima e participei do meu primeiro Raku. Conheci o biomagnetismo e voltei pra nutricionista. Resolvi combater a doença de uma forma que não agredia meu corpo, mas que cuidava dele com carinho. Fiz amizades preciosas na minha turma do museu e decidi ter um ateliê fora de lá. Meus pais resolveram construir uma edícula no fundo do quintal da casa nova. Seria o meu ateliê de cerâmica e também a marcenaria do meu pai! E eu tive um surto da esclerose, tontura e vômito como se não houvesse amanhã.

O surto passou, vieram mais sessões de biomagnetismo e também o final da construção do ateliê. Veio também minha festa de casamento, foi lindo! Veio a lua de mel, a gravidez da minha melhor amiga, o pedido de casamento do meu irmão para minha cunhada e tanta coisa boa. E a cerâmica ali no meio, no formato de lembrancinhas de casamento, no formato de sonhos, de ideias, de projetos, de aprendizados e descobertas.

E a vida segue…

Hoje vejo que faz mais de ano desde meu último surto da EM. Faz mais de dois anos desde que me sentei em um escritório que não seja meu homeoffice. Faz mais de 3 anos que peguei meu diploma. Faz mais de 4 anos que deixei a dança ir embora. Faz mais de 6 anos que voltei da Alemanha completamente diferente.

Faz mais de 7 anos que decidi largar a faculdade. Faz mais de 9 anos que eu decidi não fazer faculdade de dança. Faz mais de 15 anos desde minha primeira exposição. Faz mais de 20 anos desde a primeira vez que eu pisei em Curitiba. Faz mais de 25 anos desde a primeira vez que eu peguei um lápis de cor nas mãos, ou coloquei uma sapatilha nos pés… E hoje, depois de todos esses anos, de toda essa vida, eu me sinto como aquela menininha de 3 anos, que via a vida um dia de cada vez, como se tudo fosse novo a todo instante.

A argila curou meu perfeccionismo incurável. Tem curado aos poucos minha ansiedade sem fim. Ela trouxe de volta a alegria de fazer, de criar. Ela levou e leva embora a tristeza e a auto cobrança excessivas. Hoje eu estou saudável, curada de qualquer coisa que um dia eu tive, por mais incurável que as coisas possam ser aos olhos da medicina tradicional, eu resolvi ser a excessão. Da mesma forma como eu resolvi levar a cerâmica artesanal como minha parceira, minha companheira de jornada. Decidi fazer por ela o bem, divulgar e elevar sua posição para retribuir tudo o que ela fez por mim 🙂

É por isso, mas é também por muito mais que não cabe aqui.

 

Join the discussion 6 Comments

  • Cindy disse:

    Oi… leitora nova aqui… tinha começado a seguir seu insta pelas imagens, mas hoje me encantei com o texto e vim conhecer o site/blog… acabei de descobrir tantas coisas em comum, Curitiba, Design (o Sawada da cerâmica é o professor da UFPR?), dança, o lado “fazedor” e uma doença autoimune no meio do caminho… as minhas são outras, mas tenho estudado/pesquisado muito desde 2013, lembrei do trabalho da Terry Wahls, você conhece? Ela é médica e quando não encontrou tratamento para esclerose múltipla que a ajudasse, foi pesquisar alternativas que acabaram sendo mais ligadas a estilo de vida e alimentação do que medicamentos. Acho que tem a ver com o que vi de vc por aqui… http://terrywahls.com/about/about-terry-wahls/

    • Cynthia Sarmento disse:

      Oi Cindy! Que delícia ler teu comentário!!
      Sim, sim. Este Sawada mesmo! Um amorzinho ele. Fomos vizinhos durante muitos anos e depois esbarrei com ele na faculdade, depois na cerâmica… Ele tem uma participação muito linda na minha vida 🙂
      Eu li sobre a Terry sim. Sabe, ela foi uma das fontes que me influenciaram bastante a tomar as decisões que tomei de buscar um tratamento alternativo…

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