Sobre a magnitude que é escrever.

Este ano tem sido, até o momento, incrivelmente introspectivo para mim: uma pessoa que não sabe ficar de boca fechada. Para quem convive comigo e está lendo este post esta minha colocação pode até ser motivo de grandes gargalhadas, mas eu explico.

Este ano eu tenho ficado mais comigo mesma. Com certeza esta coisa toda de não estar trabalhando fora, de ter o dia todo por minha própria conta e risco de ter, por boa parte do meu tempo, a companhia  “apenas” dos gatos ou do assento de passageiro vazio dentro do carro, é o que mais contribui para eu estar mais comigo mesma. Sendo praticamente obrigada a conviver comigo, com meus pensamentos, com minhas vontades, meus conflitos…

Esse negócio de se ter como a própria companhia nunca foi algo possível na minha vida. A casa dos meus pais sempre foi cheia de gente, cheia de barulhos, cheia de coisas, cheia de mais e eu, de certa forma, aprendi a viver no meio de tudo e todos. Nunca 100% satisfeita, mas sem conhecer nada diferente, eu fui criando mecanismos de fuga para uma provável necessidade que eu tinha de ficar sozinha, quieta no meu canto, mas que nunca soube que tinha o direito de ter. Minha principal ferramenta sempre foi escrever.

Eu era a garota dos diários. Eram diários de contos e fábulas, diários de sonhos, diários de dramas e paixões, diários de amizades perdidas, de medos, de vontades, de sonhos…

Esses dias estava olhando meu livro de alemão que usei quando estava estudando lá do outro lado do oceano e, no meio das folhas soltas com exercícios e redações encontrei uma que não pertencia àquele universo. Eu li e, para começar, estava em português, depois, era algo tão singelo e tão sensível que se não estivesse escrito na minha própria letra e não tivesse os meus erros disléxicos habituais, eu teria achado que outra pessoa escreveu. Aquele papel me fez refletir um pouco sobre esta questão do escrever e cá estou eu dividindo algumas impressões pessoais sobre o assunto…

Escrever é algo que sempre me libertou, principalmente, de momentos difíceis. Nem sempre eu fiz terapia e nem sempre eu tinha coragem de contar para o terapeuta determinadas coisas. Tem coisas que eu simplesmente tenho um bloqueio, não passa pela garganta, sequer se transforma em som. Mas chega na mão.

Escrever também foi sempre meu melhor amigo/a quando algo ridiculamente bom acontecia para mim e eu me sentia tão, tão feliz, mas ninguém mais se empolgava comigo. A frustração de estar sozinha na minha alegria só passava quando eu contava tudo para o papel, ou para o teclado.

Por este motivo, de ser meu desabafo, meu muro das lamentações, sempre tive vergonha do que eu escrevo. Este papel que estava no fundo do livro, por exemplo, é algo tão bonito e eu escondi. Quando achei, 6 anos depois de ter escrito, eu achei lindo, eu mostrei pro Carlos e ele achou lindo.

Quando escrevo aqui no blog e as pessoas vêm falar comigo e dizem “Gosto tanto do jeito que você escreve!”, eu fico meio boba, com vergonha, sem entender direito a razão daquilo. Mas tudo isso me faz aceitar mais essa coisa toda de que escrever faz parte de mim. É mais uma forma de as minhas mãos contribuírem com o mundo. É a forma como eu venho encontrado de compartilhar as coisas boas, as ideias que acredito que valem a pena, os ideais que tenho pro mundo.

Essa semana o Carlos ficou triste com uma série de coisas e não conseguia se acalmar. Me contou tudo, tomou banho, tomou chá, ouviu música tranquila, foi no estudo do centro espírita e nada de se sentir em paz.

Quando chegamos em casa eu fiz para ele um papel chamado “Diário psicológico do Carlos”, e coloquei nas mãos dele junto com uma caneta. Ele se fechou no quarto e quando saiu veio todo serelepe dizendo “Esse negócio de escrever é tão bom! Nunca tinha feito isso, mas parece que conforme você vai escrevendo, vai colocando pra fora toda a angústia. Estou mais leve.”. Não preciso dizer mais nada, né?

 

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